Deu na Folha de S.Paulo...

Abaixo o bis!

Depois de um show apoteótico, baseado em seu histórico disco "À Procura da Batida Perfeita", a mais perfeita fusão do samba com o rap já produzida, Marcelo D2 terminou a sua performance no MAM do Rio com 5.000 pessoas aplaudindo e gritando em delírio e disse na lata: "Valeu! Acabou! Era tudo o que eu tinha de melhor, não tem mais nada, não tem essa farsa de bis. Boa noite". E saiu. E o público, depois de breve espanto, entendeu, aplaudiu e voltou para casa com um sabor inesquecível nos ouvidos. Marcelo D2 mais uma vez inovou, além da música, na relação artista-público.

Sim, você e eu já participamos dessa farsa ridícula infinitas vezes. O show termina, o público aplaude, o artista agradece, finge que o show acabou e sai. O público fica aplaudindo e gritando "por que parou? parou por quê?", o artista volta, o público se finge de surpreso e aplaude agradecido, elecanta mais duas ou três - claro, as suas melhores músicas, preparadas especialmente para a ocasião - e aí o show finalmente termina. O que era paraser exceção foi transformado em regra, e o genuíno entusiasmo do público retribuído pela generosidade do artista, em ridículo ritual de mentirinha.

Essa palhaçada também dá oportunidade a artistas egomaníacos de tripudiar com o público, de se fazer de difícil, voltar com aparência exausta, uma toalha nos ombros e um certo ar de tédio sorridente, "oh! como a glória cansa", e o público explode de alegria e felicidade, e fecha -se mais umafarsa do show business. É constrangedor. O público se sente obrigado a aplaudir e a pedir "bis", mesmo quando não se entusiasmou durante todo o show ou está, digamos, satisfeito com o que já ouviu. Mas, como brasileiro adora tudo que é brinde ou é grátis, espera para ouvir mais do que não gostou, como quem come uma comida ruim no restaurante só porque já está paga.

por: Nelson Motta