O astro do Oscar
Ray faz parte de uma tendência cada vez maior em Hollywood, a das cinebiografias (há quatro na categoria de melhor ator no Oscar). O longa reproduz o lugar-comum do gênero ao sublinhar o sentido redentor para os acidentes de percurso do personagem. Ray Charles sai do filme não como um santo, mas como um homem que, quando se vê ameaçado por suas sombras, decide caminhar para a luz - a suposta monogamia e a desintoxicação.
Jamie Foxx concorre em duas categorias e está cotadíssimo por sua imitação de Ray Charles
Jamie Foxx foi o ator de 2004 no cinema americano. Concorreu em três categorias do Globo de Ouro, inclusive em TV (pela série Redemption), e disputa duas estatuetas no Oscar, cuja festa acontecerá em 27 de fevereiro. Ele tanto pode ser premiado como coadjuvante por Colateral, no papel do taxista de Los Angeles que conduz o matador Tom Cruise, como sair vitorioso como protagonista de Ray, no qual imita voz, movimentos e aparência do músico Ray Charles (1930-2004). Foxx já ganhou por este filme o Globo de Ouro de ator de musical e é o décimo intérprete a competir por dois filmes no mesmo ano. Está cotadíssimo.
Ray estréia no Brasil na próxima sexta-feira (4/2). Para encarnar o mitológico rei do gospel-blues-jazz, o ator circulou vendado por várias semanas e pôs lentes de contato azuis para ficar convincente na pele do cantor e pianista cego. Também aprendeu a tocar no piano as músicas escaladas para a trilha sonora, passou horas diante da TV vendo apresentações de Charles e estudou cada detalhe de seus movimentos de pescoço e pernas, copiando até o jeito de andar - tão ereto que nem sequer fazia sombra.
É uma notável imitação do original, assim como fizeram Daniel Oliveira em Cazuza e Val Kilmer como o Jim Morrison de The Doors. A interpretação de Foxx não tem muitas sutilezas, ao contrário da excelente presença em Colateral. Mas, ainda assim, apóia-se em sólido trabalho de composição física e vocal. Para os eleitores do Oscar, ficar igual ao personagem real é a glória.
No cinema, Foxx começou em 1992, mas nunca brilhou - não no primeiro time. Revelação tardia, agora aos 37 anos, o ator, nascido no Texas e registrado Eric Morlon Bishop, caminhou lentamente. Começou nas stand up comedies, como são chamados os shows-solo de humor, e estudou música na escola Julliard, onde aprendeu piano clássico. Já gravou um disco pop, Peep This (1994), e cantou a canção-tema de Um Domingo Qualquer, de Oliver Stone, no qual também atuou.
Foxx é o melhor, se não a única qualidade maiúscula, de Ray, a despeito das seis indicações para o Oscar - nunca um sinal incontestável de valor artístico, como bem sabe quem acompanhou os indicados ao longo dos anos. O roteiro se atrapalha em explicar a interioridade do músico com flashbacks e delírios reveladores de seus traumas de infância. Atenua ao máximo o mergulho nas drogas e nas mulheres e valoriza os números musicais e a filosofia ''levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima''. Essa suavizada pode ser efeito dos 15 anos em que o projeto do filme ficou sendo gestado, sempre com a bênção do próprio biografado.
O ator compensa os problemas de estrutura e a inspiração pálida do diretor Taylor Hackford (de Advogado do Diabo). Hackford quase mina a atuação de Foxx. Se o filme valoriza o controle do sucesso por parte de Ray Charles, Foxx acaba saindo maior que o próprio personagem. Ray, o filme, é Foxx. E Foxx é Ray, o Charles.
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