Câmara julga a si ao me julgar, diz DirceuNo discurso para tentar salvar seu mandato, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirmou diante de um plenário lotado e em completo silêncio que foi submetido a um processo de "linchamento público" nos últimos cinco meses, que "tem as mãos limpas" e, em tom de alerta, disse aos deputados que eles também estavam julgando a si próprios.
"Fui submetido a um processo de linchamento público, de prejulgamento. Mas eu tenho, como cidadão, o direito da presunção da inocência, e não da culpa", afirmou o deputado.
Em 41 minutos de discurso, nove a menos do que tinha direito, o petista disse que travou um "combate de peito aberto" e usou a própria biografia, de líder estudantil, de preso político e de exilado, para tentar convencer o plenário a absolvê-lo.
"Depois de 40 anos de vida pública, do dia para a noite, fui transformado no chefe do "mensalão", em bandido, no maior corrupto desse país", disse. Na seqüência, foi aplaudido ao avisar que, "qualquer que seja o resultado", "continuará lutando até provar sua inocência".Foi aplaudido ainda outras duas vezes durante sua fala por apoiadores que ocupavam as galerias e terminou sua fala dizendo ser "um sobrevivente". "Não quero misericórdia nem clemência, quero justiça", afirmou.
Falando aos deputados, desafiou-os a provarem que houve processo de compra de votos pelo governo. "A Câmara sabe que eu não sou chefe do "mensalão". Cada deputado e cada deputada sabe. Jamais propus para cada deputado e cada deputada compra de votos. Esta Casa, aliás, está me julgando mas também está se colocando em julgamento", declarou. Arrematou com um apelo: "Coloquem-se no meu lugar. Como é possível cassar sem provas?"
Erros
Ele voltou a dizer que não sabia das irregularidades cometidas pelo PT e que assumiria os erros se os tivesse cometidos. "Se eu tivesse participado de alguma coisa, eu teria assumido no primeiro dia. Sempre fiz isso na minha vida, mesmo quando estava ameaçado de morte. Não sou cidadão de negar o que pratiquei."Uma a uma, Dirceu rebateu as acusações que pesam contra ele. Disse que nunca tratou com o publicitário Marcos Valério do financiamento do PT e negou que um assessor seu tenha sido beneficiado pelo "valerioduto". "Não é verdade que houve compra de votos. O país sabe o que houve: repasses de recursos para pagamento de dívidas de campanha eleitoral. O PT já assumiu seus erros e pediu desculpas."
Também rechaçou críticas sobre suas manobras na Justiça, afirmando "não ter pedido impunidade nem ter feito chicana", e rebateu denúncias de favorecimento à ex-mulher, Angela Saragoça, e ao filho, Zeca Dirceu, prefeito de Cruzeiro D'Oeste (PR).
Dirceu classificou sua saída da Casa Civil "como a pior coisa da sua vida", disse reconhecer erros políticos e pediu para ser investigado, embora considerasse uma "ignomínia" ser acusado de arquitetar o caixa dois petista. "Não vou assumir aquilo que não fiz. Não vou. Não fiz e não assumo."
"Não tenho valor pessoal próprio e qualidades pessoais próprias. Por razões da vida cheguei até aqui. Por razões da vida não caí em combate", declarou.
O ex-ministro definiu o período desde sua saída do ministério como "uma agonia, um inferno, um fuzilamento". Ele também soltou farpas à imprensa, dizendo que a "opinião publicada criou uma opinião pública" pela sua cassação. "Muitas das denúncias que foram investigadas eram vazias e foram promovidas por setores da imprensa."
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