Roubado
Colunista da Revista TRIP e ex-presidiário, Luiz Mendes conta o que sentiu ao perceber que havia sido furtadoTchekhov, escritor e dramaturgo russo, dizia que: "Nada que é humano me é estranho". Hoje aprendi, de modo dramático e chocante, que tudo o que aconteça ao ser humano já não me é mais estranho.
Eu e minha sobrinha pegamos ônibus juntos. Ela desceria em Santana e eu prosseguiria até o bairro de Pinheiros. De lá faria baldeação para chegar em casa. Moro em Embu das Artes. Viagem cansativa em ônibus urbano, do fundo da zona norte para o extremo da zona sul, atravessando o centro da cidade de São Paulo.
O coletivo estava cheio, ela pagou as nossas passagens e ficamos de pé. Estávamos absorvidos em nosso diálogo, embora o incômodo das pessoas passando e nos espremendo contra as cadeiras. O calor estava insuportável. A chuva de verão molhara a todos. Um cheiro forte de cachorro molhado ofendia as narinas.
Logo depois que ela desceu vagou espaço. Mais que depressa e deselegantemente, me apossei do lugar. Nem olhei se havia alguém mais necessitado que eu para sentar. Estava com mochila nas costas e sacola na mão.
Segui viagem um pouco mais confortável, se é que se pode dizer isso de um transporte coletivo. Desci no centro de Pinheiros e caminhei para o ponto do ônibus que me levaria até minha casa. Uma vendedora ambulante vendia latinhas de refrigerantes mergulhadas no gelo picado. Irresistível.
Quando meti a mão no bolso para pagar, cadê a carteira? Senti o corpo superaquecer. Eu havia sido roubado. Acho que foi a minha primeira experiência como vítima. Primeiro a raiva subiu na cara. Um cravar de dentes. Quem, como? Justo eu? Não vira e nem sentira nada. Relâmpagos de desorientação e pânico me deixaram estupidificado e imóvel. Fiquei ali parado como um pano de prato sujo e úmido. O que fazer?
Meus documentos! Choque. Fora uma luta corpo a corpo para consegui-los. O título de eleitor conseguira recente, depois de esgotada toda minha paciência. Meu CPF fora cancelado e com muito esforço conseguira reabilitá-lo. O RG fora o único documento que saiu comigo da prisão. Meu alvará de soltura vive em minha carteira. Não sabia ao certo quanto possuía de dinheiro, mais de cem reais, imaginava.
Como chegar em casa agora? Não conhecia ninguém por ali. Pensei no banco. Então o susto foi maior. E os cartões do banco? O prejuízo seria maior? Como fazer? Fiquei tonto, dei passos para frente e para trás, sem direção. A quem recorrer? Angustiado, senti o desespero me tomando.
Trip. Sim, a Trip não estava longe. Mais uma vez na revista estava a solução. Segui na direção já agora mais coordenado. Quando adentrei ao prédio, me senti salvo. O editor e as meninas da produção foram solidários, paparicaram, só faltaram me dar água com açúcar.
Peguei 10 reais emprestados e continuei a viagem para casa, pensando que eu já fizera aquilo com muita gente. Quantos não se desesperaram? Doeu fundo a consciência, ao tempo em que me senti contente por estar tão distante de meu passado.
Obs.: Hoje, cinco dias depois, me telefonaram do correio de Santana; acharam minha carteira com todos os documentos, até os do banco. Claro, o dinheiro já era.
Luiz Alberto Mendes, 53, aprendeu na marra, preso, a ser o que é – escritor. Na foto, ainda moleque, no reformatório, Mendes é o da frente. Todos os outros garotos morreram. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
Fonte: Revista TRIP
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